Sobre que escrever quando o procurado tema,
contido numa garrafa de vidro, navega à toa pelo cinzento mar de
neurotransmissores e não encontra receptor postsináptico? Sobre que escrever
quando o génio não encontra inspiração ou musa que a sua chama acenda?
A resposta refugia-se nesse mesmo mar. Apenas
é tomada por correntes distintas e termina dando à costa e aí descansa… até que,
após uma breve mirada pelo areal, recorrendo a linha em que abraça a água,
sobre o sol poente, semicerram-se os olhos de desconfiança ao ver a cristalina vasilha.
Devagar, levantamo-nos. Sacudimos a areia que
o suor obrigou a colar-se à pele e aproximamo-nos do local onde jaz a garrafa
que, ocasionalmente, é banhada pelas ondas que carregam as lágrimas da nossa
nação.
A medo, receosos da mensagem reservada, da
solução por achar, invertemos a garrafa para que, sobre a palma aberta, caia a
dita.
Recorremos as curvas do papel, humedecido
pela ânsia da descoberta, com a pálida polpa dos trémulos dedos. Desenrolamos
atentamente o tesouro que aguardamos e… eis que se revela o segredo. Nada!
Vazio. Em branco!
Saímos desiludidos daquele momento. O
desalento que se origina da espera. “Quem
espera sempre alcança”, querem fazer crer; pois nós descobrimos que “quem espera, desespera”. Abre-se a porta
à descrença, à deceção, ao desengano.
Aguardávamos umas quaisquer palavras,
cifradas talvez, que nos guiassem; que nos conduzissem ao texto que queríamos
escrever. Nada, apenas uma não menos críptica brancura suja num papel cuja reflexão
escarlate acentua as marcas da passagem do tempo e das provações por que
passou.
Desistimos, podemos dizer. Sem saber sobre o
que escrever pensamos em não refletir esta sexta-feira à noite.
“Vamos
mas é sair!” – tentámo-nos convencer. “Dançar
até que o zumbido nos ouvidos se escute mais nítido do que a música de fundo;
até o primeiro sol do dia entrar pelas portas do bar; até que a distância que
nos separa da rapariga do vestido amarelo no início da noite se reduza à
cumplicidade de uns dedos em comunhão quando se levantar o crepúsculo da
madrugada. Quem sabe, estando a musa encontrada, a inspiração virá com sua
amiga.”
Mas quando se quer e procura… acontece que no
momento de maior necessidade, os até então adormecidos, preguiçosos inclusive,
residentes da caixa craniana, também conhecidos como neurónios, lá encetam o
seu trabalho, e da mina de ideias, ainda por explorar completamente, extraem
uma pequena peça da qual nós podemos fazer uso.
E BUM!; já quando decidido o nosso destino na sexta-feira estava, conectamos os pontos e damos sentido ao papel que achávamos
vazio.
Concorremos à escrivaninha, na qual
assentamos os nossos escritos, e percorremos com o olhar as suas gavetas até à
que resguardava a folha.
Pegámos nela com as mãos firmes e rosadas, e
perscrutámos novamente o seu conteúdo.
Em branco ela seguia, mas essa era exatamente
a resposta que procurávamos.
Apercebemo-nos que o branco era uma
oportunidade; o vazio do qual se cria, a ausência do que se torna presente; o
nada que tudo diz.

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