sexta-feira, 14 de julho de 2017

Reflexões De Sexta À Noite: O Nada Que Tudo Diz


Sobre que escrever quando o procurado tema, contido numa garrafa de vidro, navega à toa pelo cinzento mar de neurotransmissores e não encontra receptor postsináptico? Sobre que escrever quando o génio não encontra inspiração ou musa que a sua chama acenda?

A resposta refugia-se nesse mesmo mar. Apenas é tomada por correntes distintas e termina dando à costa e aí descansa… até que, após uma breve mirada pelo areal, recorrendo a linha em que abraça a água, sobre o sol poente, semicerram-se os olhos de desconfiança ao ver a cristalina vasilha.
Devagar, levantamo-nos. Sacudimos a areia que o suor obrigou a colar-se à pele e aproximamo-nos do local onde jaz a garrafa que, ocasionalmente, é banhada pelas ondas que carregam as lágrimas da nossa nação.
A medo, receosos da mensagem reservada, da solução por achar, invertemos a garrafa para que, sobre a palma aberta, caia a dita.
Recorremos as curvas do papel, humedecido pela ânsia da descoberta, com a pálida polpa dos trémulos dedos. Desenrolamos atentamente o tesouro que aguardamos e… eis que se revela o segredo. Nada! Vazio. Em branco!
Saímos desiludidos daquele momento. O desalento que se origina da espera. “Quem espera sempre alcança”, querem fazer crer; pois nós descobrimos que “quem espera, desespera”. Abre-se a porta à descrença, à deceção, ao desengano.
Aguardávamos umas quaisquer palavras, cifradas talvez, que nos guiassem; que nos conduzissem ao texto que queríamos escrever. Nada, apenas uma não menos críptica brancura suja num papel cuja reflexão escarlate acentua as marcas da passagem do tempo e das provações por que passou.

Desistimos, podemos dizer. Sem saber sobre o que escrever pensamos em não refletir esta sexta-feira à noite.
Vamos mas é sair!” – tentámo-nos convencer. “Dançar até que o zumbido nos ouvidos se escute mais nítido do que a música de fundo; até o primeiro sol do dia entrar pelas portas do bar; até que a distância que nos separa da rapariga do vestido amarelo no início da noite se reduza à cumplicidade de uns dedos em comunhão quando se levantar o crepúsculo da madrugada. Quem sabe, estando a musa encontrada, a inspiração virá com sua amiga.”

Mas quando se quer e procura… acontece que no momento de maior necessidade, os até então adormecidos, preguiçosos inclusive, residentes da caixa craniana, também conhecidos como neurónios, lá encetam o seu trabalho, e da mina de ideias, ainda por explorar completamente, extraem uma pequena peça da qual nós podemos fazer uso.
E BUM!; já quando decidido o nosso destino na sexta-feira estava, conectamos os pontos e damos sentido ao papel que achávamos vazio.
Concorremos à escrivaninha, na qual assentamos os nossos escritos, e percorremos com o olhar as suas gavetas até à que resguardava a folha.
Pegámos nela com as mãos firmes e rosadas, e perscrutámos novamente o seu conteúdo.
Em branco ela seguia, mas essa era exatamente a resposta que procurávamos.


Apercebemo-nos que o branco era uma oportunidade; o vazio do qual se cria, a ausência do que se torna presente; o nada que tudo diz.

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