sexta-feira, 7 de julho de 2017

Reflexões De Sexta À Noite: Algumas Razões Para Andarmos Nus!


Não podemos andar nus pela rua; nem correr, ainda quando uma aposta o estabelece no decorrer da sombra montada pela noite. Não podemos fazer o famoso xixi a céu aberto quando o músculo vesical dá sinal que a bexiga está no seu limite e que o músculo esfíncter é o último obstáculo que intercede a nosso favor por um final bem mais feliz que uma mancha húmida e mais escura no entrepernas.
Vejam lá, já nem uma mãe pode alimentar a sua cria publicamente sem que uns olhares perversos tentem perscrutar a incidência ou sem que umas miradas de virginal consternação rotulem o ato mais natural de sempre como insensível e traumatizante.
Mas esperem! Lindo é ver um bezerro a lamber as tetas da vaca. Ah, como é bela a natureza!

Quando a ramificação filogenética que gerou o ser humano fazia pouco que se havia desviado do ramo comum que partilhamos com os símios – certo é que alguns ditos “homens” apresentam comportamentos que sugerem que alguns, todavia, seguem nesse trajeto – o que descrevemos em parágrafos anteriores talvez não constituísse, para esses recém-formados hominídeos, qualquer tipo de problema.
Não nos parece que enrubescessem por urinar junto a um pequeno pinheiro. Caramba, até suspeitamos que não precisassem de se esconder da vista ou de consumir o líquido que deixa cair o véu do embaraço para que qualquer arbusto albergasse tão respeitável consequência da sua própria fisiologia.
A neurotransmissão, quiçá, ditasse que a necessidade apagaria o grilinho da consciência. Modularam-se vias neurológicas e desenvolveu-se um sentido de vergonha e, posteriormente, de pudor.
No entanto, não deve ter iniciado com o sentimento de que era de mau gosto a exposição dos caracteres sexuais. Pode que este aspecto venha da proteção dos mesmos quando, em caças às zebras, os trambolhões mazelavam mais essa área do que outra qualquer.

Fazemos um à parte para louvar as Homo erectus de Cascais que, na sua época, não teriam problemas em ver um belo espécime a bambolear as bonitas jóias que hoje tanta questão fazemos de encofrar. Salut!

Concluindo, evoluímos. Algo que tanto nos conduz ao encontro do melhor que podemos ter como do pior que podemos desenvolver; que nos conduziu tanto a um certo pedantismo com origem numa sociedade déspota, que do topo da sua insustentável soberba faz vozear em tom condenável o que tão natural é, relegando para plano secundário o verdadeiramente censurável, como ao desenvolvimento de regras com fundamento e intuito de proteção da saúde pública.
O resultado vê-se no seguinte exemplo: Podemos ter um pénis esculturalmente cinzelado digno de ser exposto e apenas umas poucas sortudas terão a oportunidade de apreciar a obra.

Terminamos a nossa reflexão com a exposição da causa que nos levou a escrevê-la: num período de três dias assistimos, por duas vezes, à exposição pública dos genitais masculinos; uma delas protagonizada por um senhor de meia-idade e cambaleante que, meio escondido pela vegetação, encontrou recetora para as consequências da fragilidade que o avançar da vida carrega e a outra por uma criança que sob as ordens da mãe demonstrou a salubridade dos infantes rins no solarengo aparcamento de um supermercado.

Imaginamos que pela simples recriação que o tablado da nossa cabeça sustenta ao rememorar ambas as situações, o mesmo efeito se opere no leitor, se o nosso trabalho como dramaturgos, com competência, foi executado. De maior louvor será esse mesmo trabalho se as reações que descreveremos corresponderem às vossas.
Esperemos apenas que os atores terminem a peça que o encenador, em esmeros, se desdobrou, para preparar.

Findada a dita, avançamos. A reação que desperta em nós uma das cenas é um sentido de pudor repugnante, ao passo que a outra de riso.
Isto leva-nos a acreditar que o nosso sentido de pudor é seletivo e se pode manifestar de modos distintos.
Há algo que apela ao humor ao ver um miúdo, pequerrucho e inocente, cujas vias neuronais todavia se conservam primitivas, a urinar em frente aos olhos do mundo. No entanto, a vergonha bate à porta quando a neurotransmissão determina que a aversão e a consternação serão o resultado das ações de um pobre homem quando, num relance de olhos, o apanharmos em momentos que se tornaram interditos aos demais.  


Afinal, o pudor não é mais que neurotransmissão fora de prazo.

Sem comentários:

Enviar um comentário