Não podemos andar nus pela rua; nem correr,
ainda quando uma aposta o estabelece no decorrer da sombra montada pela noite.
Não podemos fazer o famoso xixi a céu aberto quando o músculo vesical dá sinal
que a bexiga está no seu limite e que o músculo esfíncter é o último obstáculo
que intercede a nosso favor por um final bem mais feliz que uma mancha húmida e
mais escura no entrepernas.
Vejam lá, já nem uma mãe pode alimentar a sua
cria publicamente sem que uns olhares perversos tentem perscrutar a incidência
ou sem que umas miradas de virginal consternação rotulem o ato mais natural de
sempre como insensível e traumatizante.
Mas esperem! Lindo é ver um bezerro a lamber
as tetas da vaca. Ah, como é bela a natureza!
Quando a ramificação filogenética que gerou o
ser humano fazia pouco que se havia desviado do ramo comum que partilhamos com
os símios – certo é que alguns ditos “homens”
apresentam comportamentos que sugerem que alguns, todavia, seguem nesse trajeto
– o que descrevemos em parágrafos anteriores talvez não constituísse, para
esses recém-formados hominídeos, qualquer tipo de problema.
Não nos parece que enrubescessem por urinar
junto a um pequeno pinheiro. Caramba, até suspeitamos que não precisassem de se
esconder da vista ou de consumir o líquido que deixa cair o véu do embaraço
para que qualquer arbusto albergasse tão respeitável consequência da sua
própria fisiologia.
A neurotransmissão, quiçá, ditasse que a
necessidade apagaria o grilinho da consciência. Modularam-se vias neurológicas
e desenvolveu-se um sentido de vergonha e, posteriormente, de pudor.
No entanto, não deve ter iniciado com o
sentimento de que era de mau gosto a exposição dos caracteres sexuais. Pode que
este aspecto venha da proteção dos mesmos quando, em caças às zebras, os
trambolhões mazelavam mais essa área do que outra qualquer.
Fazemos um à parte para louvar as Homo erectus de Cascais que, na sua
época, não teriam problemas em ver um belo espécime a bambolear as bonitas
jóias que hoje tanta questão fazemos de encofrar. Salut!
Concluindo, evoluímos. Algo que tanto nos
conduz ao encontro do melhor que podemos ter como do pior que podemos desenvolver;
que nos conduziu tanto a um certo pedantismo com origem numa sociedade déspota,
que do topo da sua insustentável soberba faz vozear em tom condenável o que tão
natural é, relegando para plano secundário o verdadeiramente censurável, como
ao desenvolvimento de regras com fundamento e intuito de proteção da saúde pública.
O resultado vê-se no seguinte exemplo:
Podemos ter um pénis esculturalmente cinzelado digno de ser exposto e apenas
umas poucas sortudas terão a oportunidade de apreciar a obra.
Terminamos a nossa reflexão com a exposição
da causa que nos levou a escrevê-la: num período de três dias assistimos, por
duas vezes, à exposição pública dos genitais masculinos; uma delas
protagonizada por um senhor de meia-idade e cambaleante que, meio escondido
pela vegetação, encontrou recetora para as consequências da fragilidade que o
avançar da vida carrega e a outra por uma criança que sob as ordens da mãe
demonstrou a salubridade dos infantes rins no solarengo aparcamento de um
supermercado.
Imaginamos que pela simples recriação que o
tablado da nossa cabeça sustenta ao rememorar ambas as situações, o mesmo
efeito se opere no leitor, se o nosso trabalho como dramaturgos, com
competência, foi executado. De maior louvor será esse mesmo trabalho se as
reações que descreveremos corresponderem às vossas.
Esperemos apenas que os atores terminem a
peça que o encenador, em esmeros, se desdobrou, para preparar.
Findada a dita, avançamos. A reação que
desperta em nós uma das cenas é um sentido de pudor repugnante, ao passo que a
outra de riso.
Isto leva-nos a acreditar que o nosso sentido
de pudor é seletivo e se pode manifestar de modos distintos.
Há algo que apela ao humor ao ver um miúdo,
pequerrucho e inocente, cujas vias neuronais todavia se conservam primitivas, a
urinar em frente aos olhos do mundo. No entanto, a vergonha bate à porta quando
a neurotransmissão determina que a aversão e a consternação serão o resultado
das ações de um pobre homem quando, num relance de olhos, o apanharmos em
momentos que se tornaram interditos aos demais.
Afinal, o pudor não é mais que
neurotransmissão fora de prazo.

Sem comentários:
Enviar um comentário