O descampado que os olhos quase se esquecem
de ver, espraia-se desde a janela do meu quarto, por largos metros - talvez uns
poucos quilómetros -, até três mal distintas casas. Pelo que a visão alcança
devem ser escaninho de toda a população da aldeia vizinha. Perdem-se os seus
contornos pela chuva que eleva o característico odor que os terrenos molhados
encerram até que um choro dos céus liberta a sua verdadeira essência. O aroma
entra pela janela semiaberta e com ele traz a tristeza e a neblina que se
abatem sobre esta noite de julho.
À névoa, que já deixava a noite vaga, aliam-se
os relâmpagos que tornam a escuridão em clarões de trevas.
Hum…engraçado. Entre o retumbar dos trovões recordo
ouvir, esta manhã, alguém comentar a vinda de mau tempo. De certeza que alguém
já nevado, em colóquio de rua, ao encontrar uma cara amiga que partilhe com ele
um esboço de sorriso, teria previsto a vinda da tempestade. Um dos seus joelhos
a havia sentido, dizia. E a rapariga acenava afirmativamente a cabeça.
Já eu… eu não podia acreditar! Com os meus
olhos via o sol raiar e, com o passar da manhã, o céu a tornar-se cada vez mais
límpido e azul; com os meus ouvidos, escutava crianças cantarem a alegria de o
serem e a doce voz da moça que, com o velhinho, trocava impressões sobre os
fenómenos atmosféricos; com o meu tacto julgava as texturas que o calor
empresta ao ar. Naquele momento, nada me faria crer numa reviravolta
meteorológica.
Mas não é que a enferma articulação tinha
acertado?!
A alma é bendita quando arrostamos a
ignorância do nosso conhecimento e amaldiçoada quando o obstinado conhecimento
não é suficiente para a reconhecer.
Serei tão tonto assim? Arrogante e incapaz de
esgueirar-me da bolha egocêntrica em que me suponho e ouvir um velhinho na rua,
cujas preocupações se dissipam na bondade de oferecer-lhe o meu tempo?
A rapariga sabia o que fazia. Libertou-se das
correntes que a sobranceria impõe. Deixou de ser prisioneira da azáfama do
dia-a-dia e dispôs do tempo para compreender a felicidade ao trazê-la aos
outros.
Os nimbos desfazem-se em grossas lágrimas.
Dançam com as aves noturnas, errantes por abrigo que as acolha, até beijarem o
chão que as recebe.
Porque choras, céu? Pela insolência que este
dia expôs?; pela crueldade da indiferença que mostrei a quem só queria tempo?; ou
pelo idealizado namoro que, pela falta de audácia, se viu, antes de começar, no
fim?
Porque gritas como uma mãe a quem arrancaram
o seu menino dos braços? Gritas enfadado comigo, castigando os meus pensamentos
obstinados?; gritas revoltado por saberes da solidão em que se vê mergulhado o
pobre homem?; ou gritas de raiva por seres consciente que os anjos mais
bondosos serem os que carregam os maiores problemas?
Caramba, ela não me sai da cabeça
Hum…engraçado! Uma estrela começa a espreitar
no firmamento. A primeira da noite. E ainda há minutos bradou o cosmos e
são…três da manhã!
Não sei se foram apenas as impressões que o rosto
dela, em mim, cunhou ou se o ideal de mulher que infligiu, mas ela não me deixa
a mente tranquila.
Quem se pode esquecer dessas mulheres que com
um sorriso atacam diretamente o coração; que com um relance do olhar atiçam as
borboletas já despertas pela sua figura; que, pelo suave gesto cativam a
atenção de quem despende um segundo a contemplá-las; ou que, pela candura da
conduta penetram a bolha egocêntrica com uma violência tal que a obrigam a
implodir.
Olha, as nuvens começam a abrir! E, tímida,
lança a lua os seus primeiros feixes de luz, ainda de soslaio, acompanhada de
um coro de astros. A manhã, não tarda, começará a fazer-se sentir.
Interessante como uma desconhecida pode
operar uma mudança interior com a força desapercebida do seu proceder. Algo tão
simples, algo tão elegante!
Seis da manhã e não preguei olho!
O sol esforça-se por fazer esquecer que, de
madrugada, a trovoada se fez sentir. O céu exibe um gradiente de tons de azul
que vão desde o azul-escuro, carregado, quase negro da noite, ao
azul-alaranjado, claro, vivo, de uma manhã de verão.
Hum…engraçado como o tempo trabalha!
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