terça-feira, 11 de julho de 2017

O Que Ainda Não Foi Escrito: Trovoada

O descampado que os olhos quase se esquecem de ver, espraia-se desde a janela do meu quarto, por largos metros - talvez uns poucos quilómetros -, até três mal distintas casas. Pelo que a visão alcança devem ser escaninho de toda a população da aldeia vizinha. Perdem-se os seus contornos pela chuva que eleva o característico odor que os terrenos molhados encerram até que um choro dos céus liberta a sua verdadeira essência. O aroma entra pela janela semiaberta e com ele traz a tristeza e a neblina que se abatem sobre esta noite de julho.
À névoa, que já deixava a noite vaga, aliam-se os relâmpagos que tornam a escuridão em clarões de trevas.

Hum…engraçado. Entre o retumbar dos trovões recordo ouvir, esta manhã, alguém comentar a vinda de mau tempo. De certeza que alguém já nevado, em colóquio de rua, ao encontrar uma cara amiga que partilhe com ele um esboço de sorriso, teria previsto a vinda da tempestade. Um dos seus joelhos a havia sentido, dizia. E a rapariga acenava afirmativamente a cabeça.
Já eu… eu não podia acreditar! Com os meus olhos via o sol raiar e, com o passar da manhã, o céu a tornar-se cada vez mais límpido e azul; com os meus ouvidos, escutava crianças cantarem a alegria de o serem e a doce voz da moça que, com o velhinho, trocava impressões sobre os fenómenos atmosféricos; com o meu tacto julgava as texturas que o calor empresta ao ar. Naquele momento, nada me faria crer numa reviravolta meteorológica.
Mas não é que a enferma articulação tinha acertado?!

A alma é bendita quando arrostamos a ignorância do nosso conhecimento e amaldiçoada quando o obstinado conhecimento não é suficiente para a reconhecer.
Serei tão tonto assim? Arrogante e incapaz de esgueirar-me da bolha egocêntrica em que me suponho e ouvir um velhinho na rua, cujas preocupações se dissipam na bondade de oferecer-lhe o meu tempo?
A rapariga sabia o que fazia. Libertou-se das correntes que a sobranceria impõe. Deixou de ser prisioneira da azáfama do dia-a-dia e dispôs do tempo para compreender a felicidade ao trazê-la aos outros.

Os nimbos desfazem-se em grossas lágrimas. Dançam com as aves noturnas, errantes por abrigo que as acolha, até beijarem o chão que as recebe.
Porque choras, céu? Pela insolência que este dia expôs?; pela crueldade da indiferença que mostrei a quem só queria tempo?; ou pelo idealizado namoro que, pela falta de audácia, se viu, antes de começar, no fim?
Porque gritas como uma mãe a quem arrancaram o seu menino dos braços? Gritas enfadado comigo, castigando os meus pensamentos obstinados?; gritas revoltado por saberes da solidão em que se vê mergulhado o pobre homem?; ou gritas de raiva por seres consciente que os anjos mais bondosos serem os que carregam os maiores problemas?

Caramba, ela não me sai da cabeça
Hum…engraçado! Uma estrela começa a espreitar no firmamento. A primeira da noite. E ainda há minutos bradou o cosmos e são…três da manhã!
Não sei se foram apenas as impressões que o rosto dela, em mim, cunhou ou se o ideal de mulher que infligiu, mas ela não me deixa a mente tranquila.
Quem se pode esquecer dessas mulheres que com um sorriso atacam diretamente o coração; que com um relance do olhar atiçam as borboletas já despertas pela sua figura; que, pelo suave gesto cativam a atenção de quem despende um segundo a contemplá-las; ou que, pela candura da conduta penetram a bolha egocêntrica com uma violência tal que a obrigam a implodir.

Olha, as nuvens começam a abrir! E, tímida, lança a lua os seus primeiros feixes de luz, ainda de soslaio, acompanhada de um coro de astros. A manhã, não tarda, começará a fazer-se sentir.
Interessante como uma desconhecida pode operar uma mudança interior com a força desapercebida do seu proceder. Algo tão simples, algo tão elegante!

Seis da manhã e não preguei olho!
O sol esforça-se por fazer esquecer que, de madrugada, a trovoada se fez sentir. O céu exibe um gradiente de tons de azul que vão desde o azul-escuro, carregado, quase negro da noite, ao azul-alaranjado, claro, vivo, de uma manhã de verão.

Hum…engraçado como o tempo trabalha!

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