sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Reflexões De Sexta À Noite: Rebuliço Nos Lençóis


Estimado leitor, reconhecemos que a nossa ausência afigure no vosso coração uma traição que, tal como em dois recém-apaixonados que desconhecem a correspondência do sentimento, é obra da inesperada falta de atenção, cravando a frágil máquina vermelha de dúvidas e enchendo de tristeza a beleza das feições, de acrimónia as curtas e tímidas palavras trocadas e de angústia os pensamentos que, até então, a alegria se encarregava de administrar.
 Se por um lado, é este o cocktail que preenche metade do copo emocional, o restante vê-se tomado pela impotência, não sabendo o que fazer para poder reverter o estado da prometedora relação.
Não julgueis que apenas um dos partidos embebeda o espírito da complexa mistura que acima, a receita, patenteámos; mas ambos, ignorando que procuram o que o outro tenta esconder, partilham a mesma condição de paixão incerta e, lado a lado, cogitam as impressões que um no outro provocaram e estratégias para reconquistar os olhares que se supõem perdidos.

Vendo-nos nesta situação com o nosso leitor, tentaremos colocar peso no prato que nos corresponde, potenciando o pendor da balança para o flanco que mais favorável se nos revelar e seduzir o sorriso que, no primeiro encontro, galanteou a nossa chegada.

Numa noite quente - destas que junho apenas lança uma leve fragância sobre nós, mas que agosto satura o ar com o seu perfume, robusto e quente, fazendo-o bem presente ao cingir os corpos suados, cobertos mais pelo pudor que pela temperatura – originou-se um rebuliço na nossa cabeça que não tardou a manifestar-se pela descompostura dos lençóis.
Neste “mexe para aqui, mexe para lá”, à procura de algo sobre que incidir este texto, damos por nós em avançada reflexão e chegando às conclusões que, em três pontos, exporemos:

1.    A noite é mentora do escritor.

Possui uma influência que subministra o pensamento, um carácter que domina a inspiração, uma assertividade doce que guia a mão.
O silêncio, um sem-fim de vezes mal-entendido como um sinal de solidão, é a amizade predileta da noite.
Em contraste, o ruído, outro sem-fim de vezes injustamente percebido como manifestação de sociabilidade, vê-se subjugado por aquele quando o crepúsculo começa a assentar.
O pensamento só funciona verdadeiramente quando se consegue escutar a ele próprio; quando a consciência consegue encadear, com coerência, um par de ideias; quando a insonorização interior bloqueia a poluição sonora a que somos sujeitos pelo exterior.
E a escrita enceta por esse ponto; por um silêncio, relativo na sua presença e absoluto na sua essência - podemos estar rodeados de ruído mas, no espírito, imperar o silêncio, como podemos cercar-nos de silêncio mas viver numa revolução interna constante – a que o cair do sol dá preferência. O uso que dele se faça já dependerá da compostura de cada um.
Continua com o influxo da inspiração, que acaba por ser escrava da escuridão tingida pela ocasional luz de cadeeiro, que de qualquer janela se servirá para se estabelecer como pintura excecional em tela mundana, jamais abandonando a perceção de quem, somente por uma vez, a divisar, e no observador lavrar a impressão das grandes obras.
A noite controla-a, submete-a à sua mercê e envia-a a quem dela necessitar.
Os conselhos da noite encontram o seu termo quando o silêncio, pensamento e inspiração se combinam, se tornam um e, suave e decididamente, se transpõe uma ideia, um conceito, que até então flutuava pela dimensão do abstrato, para uma folha de papel ,concretizando-se pela tinta negra que escorre da caneta depositada na mão firme que a noite, com pundonor, mentoreou.
A todos quantos invocam o seu auxílio reconhecereis, não só, as valias que lhe gabamos, bem como, que não são mentiras o que escrevemos.

2.    A noite é companheira do leitor.

Confidente muda das palavras contidas, toma a Lua pela mão e como ela, serena e silenciosa, escuta os contos dos jovens corações inflamados pelo afeto e atemorizados pela dúvida, as histórias pulsáteis dos corações alegres e de angústia dos corações adormecidos na solidão; recolhe as lágrimas que escorrem pelo gesto dos corações contritos e afaga os olhos injetados dos corações inseguros; confessa os corações flébeis que pacificamente expiam quando se veem livres das amarras da enfermidade e, respeitavelmente, saúda o seu último latido
Dona dos sentidos ocultos e significados encriptados, cobre, segura, discreta e insuspeita, os segredos mais íntimos que lhe pedimos que, por nós guarde, envolvendo-os com o denso véu de estrelas que exibe no firmamento.
Na opacidade desse cofre desvela apenas que se cada estrela, decoradora primorosa do céu noturno, der corpo a uma confidência que alguém, à nossa semelhança, confiou à sua escuridão, o mundo inteiro reconhece-lhe as virtudes que lhe descrevemos como zeladora dos sussurros mais privados da humanidade.

3.     A noite é talismã dos apaixonados.

Assistente das conversas intermináveis, dos silêncios carregados de significado, dos beijos inocentes trocados no momento da despedida, a noite entrega ao coração a chave que o abre aos sentimentos de quem o experimentar apenas no seu todo. Coração que em momentos destes não se quer completamente fechado – fortaleza impenetrável de quem sabe que a dor se avizinha – mas, ainda que atento, vulnerável e disposto a sofrer por quem justificar o martírio.

A brisa noturna cicia as imperfeições dos apaixonados, despe-os da maquilhagem social e moral que exibem, expõe-lhes o núcleo mais genuíno para que ambos possam amar a totalidade do outro. Se forte, unifica-os no amplexo da cumplicidade; se fraca, enleia os dedos na possibilidade da descoberta mais profunda.

A noite mostra-se produzindo uma dualidade de impressões: o medo que se origina nas trevas, no desconhecido e o entusiasmo demonstrado por quem, com ela, se familiariza.

Esperemos que escritor e leitor alcancem inflamar a relação perdida pela magia de somente ser, sob a florida abóbada noturna.

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