Estimado leitor, reconhecemos que a nossa
ausência afigure no vosso coração uma traição que, tal como em dois
recém-apaixonados que desconhecem a correspondência do sentimento, é obra da
inesperada falta de atenção, cravando a frágil máquina vermelha de dúvidas e
enchendo de tristeza a beleza das feições, de acrimónia as curtas e tímidas
palavras trocadas e de angústia os pensamentos que, até então, a alegria se
encarregava de administrar.
Se por
um lado, é este o cocktail que
preenche metade do copo emocional, o restante vê-se tomado pela impotência, não
sabendo o que fazer para poder reverter o estado da prometedora relação.
Não julgueis que apenas um dos partidos
embebeda o espírito da complexa mistura que acima, a receita, patenteámos; mas
ambos, ignorando que procuram o que o outro tenta esconder, partilham a mesma
condição de paixão incerta e, lado a lado, cogitam as impressões que um no
outro provocaram e estratégias para reconquistar os olhares que se supõem
perdidos.
Vendo-nos nesta situação com o nosso leitor,
tentaremos colocar peso no prato que nos corresponde, potenciando o pendor da
balança para o flanco que mais favorável se nos revelar e seduzir o sorriso
que, no primeiro encontro, galanteou a nossa chegada.
Numa noite quente - destas que junho apenas
lança uma leve fragância sobre nós, mas que agosto satura o ar com o seu
perfume, robusto e quente, fazendo-o bem presente ao cingir os corpos suados,
cobertos mais pelo pudor que pela temperatura – originou-se um rebuliço na
nossa cabeça que não tardou a manifestar-se pela descompostura dos lençóis.
Neste “mexe para aqui, mexe para lá”, à
procura de algo sobre que incidir este texto, damos por nós em avançada
reflexão e chegando às conclusões que, em três pontos, exporemos:
1. A noite é mentora do escritor.
Possui uma influência que subministra o
pensamento, um carácter que domina a inspiração, uma assertividade doce que
guia a mão.
O silêncio, um sem-fim de vezes mal-entendido como um sinal de solidão, é a amizade predileta da noite.
Em contraste, o ruído, outro sem-fim de
vezes injustamente percebido como manifestação de sociabilidade, vê-se
subjugado por aquele quando o crepúsculo começa a assentar.
O pensamento só funciona verdadeiramente
quando se consegue escutar a ele próprio; quando a consciência consegue
encadear, com coerência, um par de ideias; quando a insonorização interior
bloqueia a poluição sonora a que somos sujeitos pelo exterior.
E a escrita enceta por esse ponto; por um
silêncio, relativo na sua presença e absoluto na sua essência - podemos estar
rodeados de ruído mas, no espírito, imperar o silêncio, como podemos cercar-nos
de silêncio mas viver numa revolução interna constante – a que o cair do sol dá
preferência. O uso que dele se faça já dependerá da compostura de cada um.
Continua com o influxo da inspiração, que
acaba por ser escrava da escuridão tingida pela ocasional luz de cadeeiro, que
de qualquer janela se servirá para se estabelecer como pintura excecional em
tela mundana, jamais abandonando a perceção de quem, somente por uma vez, a
divisar, e no observador lavrar a impressão das grandes obras.
A noite controla-a, submete-a à sua mercê e
envia-a a quem dela necessitar.
Os conselhos da noite encontram o seu termo
quando o silêncio, pensamento e inspiração se combinam, se tornam um e, suave e
decididamente, se transpõe uma ideia, um conceito, que até então flutuava pela
dimensão do abstrato, para uma folha de papel ,concretizando-se pela tinta negra
que escorre da caneta depositada na mão firme que a noite, com pundonor, mentoreou.
A todos quantos invocam o seu auxílio
reconhecereis, não só, as valias que lhe gabamos, bem como, que não são
mentiras o que escrevemos.
2.
A
noite é companheira do leitor.
Confidente muda das palavras contidas, toma a
Lua pela mão e como ela, serena e silenciosa, escuta os contos dos jovens
corações inflamados pelo afeto e atemorizados pela dúvida, as histórias
pulsáteis dos corações alegres e de angústia dos corações adormecidos na
solidão; recolhe as lágrimas que escorrem pelo gesto dos corações contritos e
afaga os olhos injetados dos corações inseguros; confessa os corações flébeis
que pacificamente expiam quando se veem livres das amarras da enfermidade e,
respeitavelmente, saúda o seu último latido
Dona dos sentidos ocultos e significados
encriptados, cobre, segura, discreta e insuspeita, os segredos mais íntimos que
lhe pedimos que, por nós guarde, envolvendo-os com o denso véu de estrelas que
exibe no firmamento.
Na opacidade desse cofre desvela apenas que se cada estrela, decoradora primorosa do céu noturno, der corpo a uma
confidência que alguém, à nossa semelhança, confiou à sua escuridão, o mundo
inteiro reconhece-lhe as virtudes que lhe descrevemos como zeladora dos
sussurros mais privados da humanidade.
3.
A noite é talismã dos apaixonados.
Assistente das conversas intermináveis, dos
silêncios carregados de significado, dos beijos inocentes trocados no momento
da despedida, a noite entrega ao coração a chave que o abre aos sentimentos de
quem o experimentar apenas no seu todo. Coração que em momentos destes não se
quer completamente fechado – fortaleza impenetrável de quem sabe que a dor se
avizinha – mas, ainda que atento, vulnerável e disposto a sofrer por quem justificar
o martírio.
A brisa noturna cicia as imperfeições dos
apaixonados, despe-os da maquilhagem social e moral que exibem, expõe-lhes o
núcleo mais genuíno para que ambos possam amar a totalidade do outro. Se forte,
unifica-os no amplexo da cumplicidade; se fraca, enleia os dedos na
possibilidade da descoberta mais profunda.
A noite mostra-se produzindo uma dualidade de
impressões: o medo que se origina nas trevas, no desconhecido e o entusiasmo
demonstrado por quem, com ela, se familiariza.
Esperemos que escritor e leitor alcancem inflamar
a relação perdida pela magia de somente ser, sob a florida abóbada noturna.

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