sábado, 10 de junho de 2017

Reflexões De Sexta À Noite: Erros de Português


Se o amigo Luís percorresse, todavia, os trilhos de terra batida deste nosso país, hoje disfarçados de um asfalto charlatão, continuaria a ver melhor os buracos que lhe abrimos, a despeito da enfraquecida visão que lhe reconhecemos, do que muitos de nós que alardeamos o vigor da tenra idade.
Luís, perdoa-nos a familiaridade com que, presentemente, ousamos dirigir-nos a ti. Sabes bem que enquanto a sombra do exame de Português nos atemorizou o espírito, foste reverentemente tratado por Senhor Camões; agora que deixámos de fazer da nossa própria língua um ridículo inimigo, a aliámos, mediante acordo mútuo, à nossa facção e já nada havendo a recear, ceamos, em alegria convival, o fruto que apenas nos providencia Portugal.    

Apresentamos, assim, o ensejo como pretexto para escrevermos sobre algumas das incorreções ortográficas e gramaticais que mais frequentemente podemos escutar e ler na taverna “ O Facebook”. Local onde respeitáveis personalidades se reunem para discutirem os ataimados e falsos rumores de ontem, que sobre a mesa digital, passam por autênticos factos, variegam o boato de ontem, para hoje, o mostrarem com uma face renovada e planeam já o disfarce que amanhã lhe será vestido.
Repassemos, então, em tal estabelecimento, pelas portas meneantes e consumidas pelos maus hábitos que acolhem, com a intenção de escrutinar como, por lá, se escreve.

1.   A ver/Haver
Ambas as expressões encerram um significado distinto pelo que não podem ser usadas como sinónimas. Ao escrever “Não tem nada a ver”, indicamos que não existe uma relação entre duas situações. Ou seja, “a ver” estabelece um relacionamento entre dois acontecimentos.
Se ortografamos “Não tem nada haver”, informamos que alguém não deve – dinheiro, por exemplo – ao emissor da mensagem. Escrito de outra forma, que o locutor da mensagem não tem nada a receber por parte de outrém.

2. Hadem/Hão-de
Ao invés do exemplo inaugural, em que ambas expresões gozam do estatuto de existência devida no léxico, na dualidade que, neste ponto, apresentamos, não podemos redijir o mesmo.
“Hão-de” corresponde a uma forma do verbo haver, utilizado, geralmente como verbo auxiliar para exprimir o futuro, seguida da preposição de, ao qual junta um verbo principal.
Tomando como referência a oração “Eles hão-de descobrir a importância de saber ler”, podemos discernir os seus constituintes e identificar o que expusémos anteriormente. Esta é, deste modo, a forma correta de utilização do verbo haver já que não há nenhuma que corresponda a hadem, distribuída, sobretudo, na forma oral da comunicação por falantes inscientes das fronteiras de palavra e, porventura, com débil motivação para afuroar os mais reconditos esconsos que oculta a nossa língua mãe. 

3. Obrigado/Obrigada
Rematamos a nossa lacónica lista com um dos vocábulos que mais sensação de incómodo deve produzir na boca das pessoas de tão rara vez que é escutada, sendo que quando há o atrevimento de depositá-la entre os dentes e sobre a língua, de tão de afogadilho a pronunciarem, alcança o espírito sempre despida do propósito de mostrar sincero arrependimento.
Quando obrigado é utilizado como agradecimento, entende-se habitualmente que se trata de um uso adjetival pelo que o género do vocábulo deve concordar com o sujeito que o exprime. Se se trata de um sujeito masculino a expressão apropriada será obrigado mas se é um sujeito femenino adivinha-se que obrigada será a forma correta.
Não obstante, quando utilizada isoladamente, nada obriga a que este vocábulo seja um adjetivo pudendo tratar-se de uma interjeição e, como tal, invariável em género e em número e independente do sujeito que a expressa.
Como conclusão, consegue-se entender que, um indivíduo do sexo femenino poderá utilizar, como forma de agradecimento, obrigada – caso se trate de um adjetivo (que deve concordar com o orador em género e número) – ou obrigado – se usa uma interjeição, que é invariável -, enquanto um indivíduo do sexo masculino deverá utilizar em ambos casos – adjetivo ou interjeição – obrigado.

Já um pouco nauseados da inspiração que a fraca cerveja alimenta, viramos as costas à vil tasca e encerramos este discurso, adredemente, informativo.
Resta-nos esperar que, no leitor, se renove de pundonor e brio o sangue e que exorcize deste os últimos atos impiedosos contra a língua portuguesa.

Pugnemos em conjunto e, como escrevemos ao encetar este escrito, em alegria convival - tão habitual nos lusitanos –, e aos que podem, incluindo Luís em consideração favorável, a sensaboria do que muito se tem escrito e do pouco que se tem dito.


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