Se o amigo Luís percorresse, todavia, os
trilhos de terra batida deste nosso país, hoje disfarçados de um asfalto
charlatão, continuaria a ver melhor os buracos que lhe abrimos, a despeito da
enfraquecida visão que lhe reconhecemos, do que muitos de nós que alardeamos o
vigor da tenra idade.
Luís, perdoa-nos a familiaridade com que,
presentemente, ousamos dirigir-nos a ti. Sabes bem que enquanto a sombra do
exame de Português nos atemorizou o espírito, foste reverentemente tratado por
Senhor Camões; agora que deixámos de fazer da nossa própria língua um ridículo
inimigo, a aliámos, mediante acordo mútuo, à nossa facção e já nada havendo a
recear, ceamos, em alegria convival, o fruto que apenas nos providencia
Portugal.
Apresentamos, assim, o ensejo como pretexto
para escrevermos sobre algumas das incorreções ortográficas e gramaticais que
mais frequentemente podemos escutar e ler na taverna “ O Facebook”. Local onde respeitáveis personalidades se reunem para
discutirem os ataimados e falsos rumores de ontem, que sobre a mesa digital,
passam por autênticos factos, variegam o boato de ontem, para hoje, o mostrarem
com uma face renovada e planeam já o disfarce que amanhã lhe será vestido.
Repassemos, então, em tal estabelecimento,
pelas portas meneantes e consumidas pelos maus hábitos que acolhem, com a
intenção de escrutinar como, por lá, se escreve.
1.
A ver/Haver
Ambas
as expressões encerram um significado distinto pelo que não podem ser usadas
como sinónimas. Ao escrever “Não tem nada
a ver”, indicamos que não existe uma relação entre duas situações. Ou seja,
“a ver” estabelece um relacionamento
entre dois acontecimentos.
Se
ortografamos “Não tem nada haver”, informamos
que alguém não deve – dinheiro, por exemplo – ao emissor da mensagem. Escrito
de outra forma, que o locutor da mensagem não tem nada a receber por parte de
outrém.
2. Hadem/Hão-de
Ao
invés do exemplo inaugural, em que ambas expresões gozam do estatuto de
existência devida no léxico, na dualidade que, neste ponto, apresentamos, não
podemos redijir o mesmo.
“Hão-de” corresponde
a uma forma do verbo haver,
utilizado, geralmente como verbo auxiliar para exprimir o futuro, seguida da
preposição de, ao qual junta um verbo
principal.
Tomando
como referência a oração “Eles hão-de
descobrir a importância de saber ler”, podemos discernir os seus
constituintes e identificar o que expusémos anteriormente. Esta é, deste modo,
a forma correta de utilização do verbo haver
já que não há nenhuma que corresponda a hadem,
distribuída, sobretudo, na forma oral da comunicação por falantes inscientes
das fronteiras de palavra e, porventura, com débil motivação para afuroar os
mais reconditos esconsos que oculta a nossa língua mãe.
3. Obrigado/Obrigada
Rematamos
a nossa lacónica lista com um dos vocábulos que mais sensação de incómodo deve
produzir na boca das pessoas de tão rara vez que é escutada, sendo que quando
há o atrevimento de depositá-la entre os dentes e sobre a língua, de tão de
afogadilho a pronunciarem, alcança o espírito sempre despida do propósito de
mostrar sincero arrependimento.
Quando
obrigado é utilizado como
agradecimento, entende-se habitualmente que se trata de um uso adjetival pelo
que o género do vocábulo deve concordar com o sujeito que o exprime. Se se trata
de um sujeito masculino a expressão apropriada será obrigado mas se é um sujeito femenino adivinha-se que obrigada será a forma correta.
Não
obstante, quando utilizada isoladamente, nada obriga a que este vocábulo seja
um adjetivo pudendo tratar-se de uma interjeição e, como tal, invariável em
género e em número e independente do sujeito que a expressa.
Como
conclusão, consegue-se entender que, um indivíduo do sexo femenino poderá
utilizar, como forma de agradecimento, obrigada
– caso se trate de um adjetivo (que deve concordar com o orador em género e
número) – ou obrigado – se usa uma
interjeição, que é invariável -, enquanto um indivíduo do sexo masculino deverá
utilizar em ambos casos – adjetivo ou interjeição – obrigado.
Já
um pouco nauseados da inspiração que a fraca cerveja alimenta, viramos as
costas à vil tasca e encerramos este discurso, adredemente, informativo.
Resta-nos
esperar que, no leitor, se renove de pundonor e brio o sangue e que exorcize
deste os últimos atos impiedosos contra a língua portuguesa.
Pugnemos
em conjunto e, como escrevemos ao encetar este escrito, em alegria convival -
tão habitual nos lusitanos –, e aos que podem, incluindo Luís em consideração
favorável, a sensaboria do que muito se tem escrito e do pouco que se tem dito.
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