quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O Ano Que Passou e o Ano Que Aí Vem

Estamos a entrar numa época em que o frenesim pelas compras para o regresso às aulas começa a emergir. Supermercados lançam talões de descontos para dossiês, cadernos de argolas, para os famosos cadernos de capa preta, canetas, corretores, lápis, borrachas, afiadeiras,… Enfim, um sem número de materiais que prometem levar os alunos ao cume da pirâmide do conhecimento. E tudo a um preço bastante generoso para as carteiras dos papás e gostos dos miúdos.

Mas não poderíamos entrar com brilhantismo no ano letivo que se avizinha sem nos despedirmos apropriadamente do que já passou.
Para que tal aconteça, partilho uma pequena história.

Diz-se por aí que um aluno, cansado de tanto trabalho que tinha para fazer para uma disciplina e aflito por se aperceber que o tempo que o professor lhe dera não era suficiente, decidiu renunciar às tarefas que lhe atormentavam a mente e apazigua-la com uma real borracheira.
Desconhece-se se, de facto, o acalmou e lhe permitiu voltar ao labor proposto pela exigência escolar. No entanto, sabe-se que, talvez, ainda em período de tortura, este embriagado aprendiz decidiu que era a melhor altura para enviar um correio eletrónico ao desgraçado do professor que o fazia passar por uma revolução neuronal e o fazia esperar uma resolução rápida do problema em questão.
Transcrevo o conteúdo do e-mail:

“Sr. Professor,

Quero que saiba que é um palerma e que lamento o facto de ser carequinha. Lol.
Se quiser posso arranjar-lhe uma mocinha que o mantenha ativo e lhe ajude a recuperar o pelo perdido e a pôr de pé o que ainda existe.
Já que lhe escrevo peço também a extensão do prazo de entrega do trabalho que pediu. É que estou com uma piela enorme e sinto que amanhã estarei um pouco doente.
Até segunda!

Com os melhores cumprimentos,
Patrício António.”


 Obviamente, que o nome que surge no fim da carta não é o verdadeiro. Isto é assim, porque eu, aparentemente, me preocupo um pouco mais com a dignidade deste estudante do que o próprio.

O professor, que deve ser um gajo bem disposto e humorado, sem qualquer tipo de complexos pela parca pilosidade, inesperadamente, respondeu ao seu aluno:


“Patrício,

Parece que tiveste uma noite de arromba. Acedo ao teu pedido de alargamento do prazo de entrega para quarta-feira, até às 23:59. Recordo que deve ser entrega através da plataforma moodle.
Aprecio a preocupação pela minha calvície. Mas a minha mulher parece gostar!
Fora de contexto ... que estiveste a beber ontem à noite? Da próxima vez que me enviares um e-mail do género gostava de ter uma garrafa do que seja que bebeste para não me ter de lembrar do que escreveste.

Bom trabalho,
Sr. Professor.”

Não admira que o senhor Patrício António precise de um alargamento do prazo. Com a brutal ressaca com que acordou, nem um dia sentado à beira da sanita com uma garrafinha de água das pedras e um bom ambientador deve ter sido suficiente para recuperar da tremenda estupidez.

Espero que a moda não pegue.
Se Portugal já, raramente cumpre prazos por desculpas parvas, o próximo passo seria enviar um e-mail ao Passos Coelho a dizer devido a uma desumana borracheira não eram capazes de carregar no Enter e enviar às escolas a ficha ENES. Mas vá, estamos em Portugal, o país em que fazer nenhum recebe prémios e medalhas e ser exímio no que se faz exige que se mude de país.

  No entanto, não descuremos da criatividade demostrada pelo rapazito. Podia ter recorrido à habitual desculpa de “o cão comeu o meu trabalho” mas preferiu refugiar-se no pretexto de ter de engolir uma caixa de aspirinas ao longo do dia. É o que, hoje em dia, se chama “adiamento por justa causa”.


Onde isto jamais aconteceria era no Japão. Lá por terra de animes e hentais a educação para a aprendizagem e exploração começa desde pequenino. E nada melhor para a estimulação das ainda pouco complexas redes neuronais dos petizes nipónicos que um museu sobre… o organismo humano.  
Numa exposição intitulada Karada no Fushigi Daibouken, que traduzido, sem recurso ao Google Tradutor, é algo como “A Grande e Misteriosa Aventura do Corpo”, a miudagem examina minuciosamente os meandros da anatomia humana.
Até aqui, tudo bastante comum. A singularidade da exposição revela-se na peculiaridade de que a porta de entrada para a descoberta trata-se, pois, do olho... do cu.

A título pessoal, felicito o Japão pela originalidade e humorismo concedidos à ideia e pelo investimento feito na educação dos pequenos samurais. A Portugal deixo um pequeno aviso: cada um colhe os frutos do que semeia. Continuemos com Casas dos Segredos e afins que melhores tempos, decerto, tardarão.


Ainda que muitos ostentem a afirmação de que a educação de um povo vê-se no modo como os animais são tratados, sou muito mais defensor que a cultura de um povo revela-se no modo como investe na educação das crianças… porque esses, sim, são o verdadeiro motor da civilização futura. 

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