Estamos a
entrar numa época em que o frenesim pelas compras para o regresso às aulas
começa a emergir. Supermercados lançam talões de descontos para dossiês,
cadernos de argolas, para os famosos cadernos de capa preta, canetas,
corretores, lápis, borrachas, afiadeiras,… Enfim, um sem número de materiais
que prometem levar os alunos ao cume da pirâmide do conhecimento. E tudo a um
preço bastante generoso para as carteiras dos papás e gostos dos miúdos.
Mas não poderíamos
entrar com brilhantismo no ano letivo que se avizinha sem nos despedirmos
apropriadamente do que já passou.
Para que tal
aconteça, partilho uma pequena história.
Diz-se por
aí que um aluno, cansado de tanto trabalho que tinha para fazer para uma
disciplina e aflito por se aperceber que o tempo que o professor lhe dera não
era suficiente, decidiu renunciar às tarefas que lhe atormentavam a mente e
apazigua-la com uma real borracheira.
Desconhece-se
se, de facto, o acalmou e lhe permitiu voltar ao labor proposto pela exigência
escolar. No entanto, sabe-se que, talvez, ainda
em período de tortura, este embriagado aprendiz decidiu que era a melhor altura
para enviar um correio eletrónico ao desgraçado do professor que o fazia passar
por uma revolução neuronal e o fazia esperar uma resolução rápida do problema
em questão.
Transcrevo o
conteúdo do e-mail:
“Sr. Professor,
Quero que saiba que é
um palerma e que lamento o facto de ser carequinha. Lol.
Se quiser posso
arranjar-lhe uma mocinha que o mantenha ativo e lhe ajude a recuperar o pelo
perdido e a pôr de pé o que ainda existe.
Já que lhe escrevo peço também
a extensão do prazo de entrega do trabalho que pediu. É que
estou com uma piela enorme e sinto que amanhã estarei um pouco
doente.
Até segunda!
Com os melhores
cumprimentos,
Patrício António.”
Obviamente, que o nome que surge no fim da
carta não é o verdadeiro. Isto é assim, porque eu, aparentemente, me preocupo
um pouco mais com a dignidade deste estudante do que o próprio.
O professor, que deve
ser um gajo bem disposto e humorado, sem qualquer tipo de complexos pela parca
pilosidade, inesperadamente, respondeu ao seu aluno:
“Patrício,
Parece que tiveste uma
noite de arromba. Acedo ao teu pedido de alargamento do prazo de entrega para
quarta-feira, até às 23:59. Recordo que deve ser entrega através da plataforma
moodle.
Aprecio a preocupação pela
minha calvície. Mas a minha mulher parece gostar!
Fora de contexto ...
que estiveste a beber ontem à noite? Da próxima vez que me enviares um e-mail
do género gostava de ter uma garrafa do que seja que bebeste para não me ter
de lembrar do que escreveste.
Bom trabalho,
Sr. Professor.”
Não admira que o senhor Patrício António precise de um alargamento do
prazo. Com a brutal ressaca com que acordou, nem um dia sentado à beira da
sanita com uma garrafinha de água das pedras e um bom ambientador deve ter sido
suficiente para recuperar da tremenda estupidez.
Espero que a moda não pegue.
Se Portugal já, raramente cumpre prazos por desculpas parvas, o
próximo passo seria enviar um e-mail ao Passos Coelho a dizer devido a uma
desumana borracheira não eram capazes de carregar no Enter e enviar às escolas a ficha ENES. Mas vá, estamos em Portugal, o país em que
fazer nenhum recebe prémios e medalhas e ser exímio no que se faz exige que se
mude de país.
No entanto, não descuremos da
criatividade demostrada pelo rapazito. Podia ter recorrido à habitual desculpa
de “o cão comeu o meu trabalho” mas preferiu refugiar-se no pretexto de ter de engolir
uma caixa de aspirinas ao longo do dia. É o que, hoje em dia, se chama
“adiamento por justa causa”.
Onde isto jamais aconteceria era no Japão. Lá por terra de animes e hentais a educação para a aprendizagem e exploração começa desde
pequenino. E nada melhor para a estimulação das ainda pouco complexas redes
neuronais dos petizes nipónicos que um museu sobre… o organismo humano.
Numa exposição intitulada “Karada no Fushigi Daibouken”, que
traduzido, sem recurso ao Google Tradutor, é algo como “A Grande e Misteriosa Aventura do Corpo”, a miudagem examina
minuciosamente os meandros da anatomia humana.
Até aqui, tudo bastante comum. A singularidade da
exposição revela-se na peculiaridade de que a porta de entrada para a
descoberta trata-se, pois, do olho... do cu.
A título pessoal, felicito o Japão pela originalidade e humorismo
concedidos à ideia e pelo investimento feito na educação dos pequenos samurais.
A Portugal deixo um pequeno aviso: cada
um colhe os frutos do que semeia. Continuemos com Casas dos Segredos e
afins que melhores tempos, decerto, tardarão.
Ainda que muitos ostentem a afirmação de que a educação de um povo
vê-se no modo como os animais são tratados, sou muito mais defensor que a cultura de um
povo revela-se no modo como investe na educação das crianças… porque esses,
sim, são o verdadeiro motor da civilização futura.

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