Gostamos de escrever. Não apenas gostamos como
queremos. Um querer vero e intrincado que tem tanto de hereditário, familiar e
aprendido como de intransmissível, pessoal e único.
Outros
encargos prendem-nos de errar mais frequentemente pelas quelhas que a língua
portuguesa, ao cidadão entretido, esconde. Na sua cidade escasseiam habitantes
que, ao sentar-se à escrivaninha oculta no canto mais sombrio do quarto, sintam
a paixão que comanda o âmago e ordena a mão, e num pedaço de papel, cuja
passagem do tempo se denota pelo tom amarelado que dele resplandece, contem
histórias. Histórias que são vida. São a vida de quem escreve, a vida de quem
se escreve ou a vida de um ou outro leitor que se vê refletida no que é
escrito.
Ao
erguer a caneta, ao ajeitar a folha de papel enquanto decidimos a matéria sob
qual a reflexão irá incidir, roda no núcleo do nosso cérebro a película de
todos os amoráveis relatos que, blandiciosamente, escutávamos – e que, por
alguma razão que ultrapassa a capacidade de compreensão humana, ainda hoje
somos capazes de ouvir - das vozes sempre presentes dos nossos avós, pais,
irmãos e amigos. Isto leva-nos a concluir que escrever também é recordar. E
recordar é viver. Por estas razões, atrevemo-nos a ir mais longe e assumimos
que recordar é dar vida.
Ao estar
com o caderno no nosso regaço, a chorar a negra tinta que, à memória, a saudade
não permite esquecer, origina-se, na esperança do reencontro, a viva imagem de
quem o coração relembra e faz que, nos olhos, aquela tinta negra encontre onde
desaguar.
Esta
é a magia de escrever. Uma magia descurada pelos mais novos que não manifestam
o infinitesimal interesse e não são capazes – por resolução própria ou resolução aprendida – de descobrir os
enormes segredos que ela encerra. Na razão da juventude – audaz é quem acredita
que a usam já que todos eles acreditam que a têm - formou-se, recentemente, uma
grande névoa que, não sendo resultado da adição entre o fumo do tabaco que
libertam pela chaminé que substituiu a traqueia e o que libertam no processo
reflexão, os impossibilita de achar o palheiro que engloba a agulha.
Desta
forma, ficam os mais anciães habitantes – e uma idílica minoria de moços que
devem ter caído das mãos do obstetra e batido com o crânio no acerbo chão do
bloco operatório – com o venturoso encargo de a estimar e utilizar com a
diligência exigida, à semelhança de uma mãe que, nos seus braços, sob a mirada
zelosa de uns olhos felizes, carrega o seu primogénito.
Mas
como se pode gostar ou querer escrever se a cultura da leitura fica reduzida a
publicações do Facebook, Twitter ou Instragram povoadas de solecismos como
antiptoses e barbarismos. Tais redes
sociais deveriam sofrer um processo de acendramento linguístico-gramatical. Num
ou outro caso, a severidade da situação já carece de um cura com conhecimentos
de exorcismo e abundante água benta disponível para eliminar, definitivamente,
o demónio que invade o teclado de alguns usuários e as possessas migalhas de
ludro que, com o acúmulo da inscícia, fortes uniões forma e substitui o que,
outrora, foi um encéfalo.
Desconhecemos
as raízes desta carestia de apuro e tampouco nos colocamos na vanguarda para
surribar a terra e trazer à superfície uma resposta que ao entenebrecer e afligir
a alma mais alegre e confiada, nos motiva a dúvida do que faria à nossa!?
Sabemos,
contudo, que quem não aventura a imaginação no secular trilho dos livros malpara-se
a não chegar às comportas do templo que encerra o tesouro perdido. E, como
consequência, não enriquecem a única coisa que a humanidade deixou quedar pobre…a
sua própria consciência.
Quem
perde é quem não procura! Quem deixa uma mente abnegada acaudilhar um corpo
abúlico!
Será
que nos seus espíritos não bruxuleia a vontade de madurar, de crescer…ou será
já um espírito tão desanimado, extenuado… vencido por revistas cor-de-rosa e reality shows que a única fausta
esperança que lhe resta é a do seu último suspiro estar para breve?
Não
pretendemos que de 11 milhões de habitantes se façam 11 milhões de escritores.
Porém, almejamos que os mesmos 11 milhões cresçam para apreciar um bom livro.
Esperamos
que para que esta nossa ideia quimérica se torne realidade não seja necessário
que nos povoemos de obstetras negligentes que permitam o mergulho de
recém-nascidos para uma piscina de líquido amniótico.

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