sexta-feira, 1 de julho de 2016

Reflexões De Sexta À Noite: Ode A Uma Cultura Em Perigo



 
Gostamos de escrever. Não apenas gostamos como queremos. Um querer vero e intrincado que tem tanto de hereditário, familiar e aprendido como de intransmissível, pessoal e único.
Outros encargos prendem-nos de errar mais frequentemente pelas quelhas que a língua portuguesa, ao cidadão entretido, esconde. Na sua cidade escasseiam habitantes que, ao sentar-se à escrivaninha oculta no canto mais sombrio do quarto, sintam a paixão que comanda o âmago e ordena a mão, e num pedaço de papel, cuja passagem do tempo se denota pelo tom amarelado que dele resplandece, contem histórias. Histórias que são vida. São a vida de quem escreve, a vida de quem se escreve ou a vida de um ou outro leitor que se vê refletida no que é escrito.

Ao erguer a caneta, ao ajeitar a folha de papel enquanto decidimos a matéria sob qual a reflexão irá incidir, roda no núcleo do nosso cérebro a película de todos os amoráveis relatos que, blandiciosamente, escutávamos – e que, por alguma razão que ultrapassa a capacidade de compreensão humana, ainda hoje somos capazes de ouvir - das vozes sempre presentes dos nossos avós, pais, irmãos e amigos. Isto leva-nos a concluir que escrever também é recordar. E recordar é viver. Por estas razões, atrevemo-nos a ir mais longe e assumimos que recordar é dar vida.
Ao estar com o caderno no nosso regaço, a chorar a negra tinta que, à memória, a saudade não permite esquecer, origina-se, na esperança do reencontro, a viva imagem de quem o coração relembra e faz que, nos olhos, aquela tinta negra encontre onde desaguar. 

Esta é a magia de escrever. Uma magia descurada pelos mais novos que não manifestam o infinitesimal interesse e não são capazes – por resolução própria ou resolução aprendida – de descobrir os enormes segredos que ela encerra. Na razão da juventude – audaz é quem acredita que a usam já que todos eles acreditam que a têm - formou-se, recentemente, uma grande névoa que, não sendo resultado da adição entre o fumo do tabaco que libertam pela chaminé que substituiu a traqueia e o que libertam no processo reflexão, os impossibilita de achar o palheiro que engloba a agulha.
Desta forma, ficam os mais anciães habitantes – e uma idílica minoria de moços que devem ter caído das mãos do obstetra e batido com o crânio no acerbo chão do bloco operatório – com o venturoso encargo de a estimar e utilizar com a diligência exigida, à semelhança de uma mãe que, nos seus braços, sob a mirada zelosa de uns olhos felizes, carrega o seu primogénito.

Mas como se pode gostar ou querer escrever se a cultura da leitura fica reduzida a publicações do Facebook, Twitter ou Instragram povoadas de solecismos como antiptoses e barbarismos. Tais redes sociais deveriam sofrer um processo de acendramento linguístico-gramatical. Num ou outro caso, a severidade da situação já carece de um cura com conhecimentos de exorcismo e abundante água benta disponível para eliminar, definitivamente, o demónio que invade o teclado de alguns usuários e as possessas migalhas de ludro que, com o acúmulo da inscícia, fortes uniões forma e substitui o que, outrora, foi um encéfalo.
Desconhecemos as raízes desta carestia de apuro e tampouco nos colocamos na vanguarda para surribar a terra e trazer à superfície uma resposta que ao entenebrecer e afligir a alma mais alegre e confiada, nos motiva a dúvida do que faria à nossa!?

Sabemos, contudo, que quem não aventura a imaginação no secular trilho dos livros malpara-se a não chegar às comportas do templo que encerra o tesouro perdido. E, como consequência, não enriquecem a única coisa que a humanidade deixou quedar pobre…a sua própria consciência.
Quem perde é quem não procura! Quem deixa uma mente abnegada acaudilhar um corpo abúlico!
Será que nos seus espíritos não bruxuleia a vontade de madurar, de crescer…ou será já um espírito tão desanimado, extenuado… vencido por revistas cor-de-rosa e reality shows que a única fausta esperança que lhe resta é a do seu último suspiro estar para breve?

Não pretendemos que de 11 milhões de habitantes se façam 11 milhões de escritores. Porém, almejamos que os mesmos 11 milhões cresçam para apreciar um bom livro.


Esperamos que para que esta nossa ideia quimérica se torne realidade não seja necessário que nos povoemos de obstetras negligentes que permitam o mergulho de recém-nascidos para uma piscina de líquido amniótico

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