sexta-feira, 10 de julho de 2015

Reflexões de sexta à noite: Tatuagens de Sol

Os meus pais devem ter feito alguma coisa mal. Alguma coisa bastante mal devem ter feito os meus pais, aqueles pobres santinhos. Não sei o que poderão ter feito mas deve ter chateado alguém bastante importante para eu ter nascido assim. Não sei se foi isto que vou partilhar agora… mas se não foi é mais uma história: a minha mãe sempre teve a mania de me pentear aquele cabelo maroto que se coloca na testa, cabelo esse que evoca emoções tanto de sensualidade como de infantilidade, com saliva e à frente dos meus colegas… da faculdade.
Repito: desconheço qual terá sido o mal que terão feito tão vis seres.
Ahhh, esperem lá! Descobri. Se calhar os meus pais transmitiram-me valores, educação e, talvez, me tenham ensinado a usar o bom senso.  

Bom senso, aquilo que todo o Homem gosta muito de encher a boca ao afirmar que utiliza mas não faz a mínima ideia do que é. Deve ser uma técnica somente usada para enganar os estrangeiros... ou para ir à caça de gambuzinos.
Pais meus, que crimes contra a humanidade realizastes vós? Devemos ter voltado à Idade Média para os progenitores voltarem a protagonizar tão obsoleta tradição? Realizem-se já marchas, protestos e abaixo-assinados contra quem ainda pratica tão desprezível e desatualizada atitude!

Confesso a minha ignorância neste tema mas questiono-me se é somente a descendência de infame progénie que consegue pensar e racionalizar por si própria ou a malta cuja ascendência é mais moderna e tapa os olhos e aperta o pescoço à educação também o faz? Permitam-me a dúvida que eu admito as devidas exceções.

Tudo isto pode parecer uma breve, superficial e, potencialmente, até, desnecessária reflexão sobre os problemas da sociedade contemporânea mas com a progressão do texto revelada será a sua necessidade.

 Como seres pensantes e refletivos, somos capazes de questionar e de duvidar do que nos dizem ou mostram. Ou pelo menos devíamos. Como tal torna-se assombroso ver quantas pessoas são capazes de seguir tendências tão, claramente, perigosas e prejudiciais tanto para elas como para a comunidade.
Sendo assim, a moda deste verão é: tatuagens de sol.

O conceito é simples. Aplicam-se desenhos sobre a pele e colocam-se as pessoas ao sol à espera que a pele fique “tatuada”.
Tatuada é o termo que esses seres geneticamente programados para possuir a admirável e impressionante quantia de dois milhões de neurónios utilizam para se gabarem da proeza alcançada. Os restantes, que, geneticamente, foram “injustiçados” com uns milhares de milhão extra de células nervosas, costumam dizer que a pele fica queimada, agredida e até mal tratada. Quiçá sejam só estes últimos os que têm consciência da inconsciência que aquela atividade representa.

Uma questão insurge-se neste momento de progressiva perda de esperança na humanidade: não é do senso comum, que a radiação emitida pelo sol pode ser periclitante? Ou tamanho ensinamento só é colocado à disposição nas faculdades de medicina, enfermagem e afins?
Não me interpretem mal. Esta nova moda é tão perigosa como os velhinhos salões e máquinas de bronzeamento e de praia sem o protetor adequado. Os seus defensores podem até argumentar que é menos perigosa uma vez que só a área dita “tatuada” está exposta aos perigos da radiação.

Cientistas passam anos a investigar, estudar e interrelacionar a radiação ultravioleta, queimaduras e a génese de cancro da pele e chegam à conclusão que pode tornar-se ameaçador à própria biologia e fisiologia humanas. No entanto, umas poucas horas de investigação pela internet revela o quão bonitos e bonitas estão os meninos e as meninas e fazem logo pender a balança para a escabrosa tendência.
Atenção, o que estes senhores e senhoras estão a fazer é de valor. Podemos estar a assistir a um valente e histórico afrontamento às teorias de Darwin sobre a sobrevivência dos mais adaptados. Deixemos que a batalha comece!

Podia ser spoiler e contar o último episódio, mas contenho-me. Digo apenas que o seu criador, para ceifar personagens dos episódios, é pior que o George R. R. Martin.

Este tipo de modas não se entendem. Na verdade, poucas são as que chegam a roçar o córtex da minha compreensão. Talvez seja eu um inadaptado tendo em conta as condições sociais que, em pleno 2015, nos são apresentadas. Afinal, uma espécie como eu só pode ter surgido do cruzamento de um óvulo de Berzebu e um espermatozoide da mítica criatura finlandesa Peikko, numa experiência cuja metodologia e instruções de fabrico vieram numa caixa de cereais proveniente dos grandes laboratórios subterrâneos e clandestinos asiáticos.

Vivemos na era da tecnologia e a que muitos especialistas chamam “Era da Informação”. No entanto, todo o potencial que nos é proporcionado acaba por ser desaproveitado por malta sem capacidade de filtro e que acredita em tudo o que está escrito na primeira hiperligação do Google.
Saber que tendências devem ser seguidas (para não falar de muitos outros assuntos mais importantes que este) exige um exercício de reflexão que, infelizmente, a nossa sociedade não está habituada a praticar. E quando o faz, acorda na manhã seguinte com dores de cabeça, fruto da atrofia mental que tem vindo a sofrer. Desafortunadamente, as nossas escolas e universidades já entraram numa espiral em que acreditam que decorar é o caminho para o saber, pelo que o trabalho reflexivo, o uso da crítica e a valorização da dúvida começam a estar, também, “fora de moda”. Estão-nos a condenar a passar uma vida inteira amarrados a correntes e a olhar para uma parede onde só somos capazes de ver a sombra do que se está passar. Uma mera ilusão de realidade.


Sendo assim, optar por seguir a moda das calças ao fundo do rabinho não é a melhor decisão. Mas sendo dada a escolha entre esta e as tatuagens de sol, deixem lá a rapaziada andar a mostrar os boxers. A ser possível que estejam lavadinhos e sem manchas.

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