Os meus pais devem ter feito alguma
coisa mal. Alguma coisa bastante mal devem ter feito os meus pais, aqueles
pobres santinhos. Não sei o que poderão ter feito mas deve ter chateado alguém
bastante importante para eu ter nascido assim. Não sei se foi isto que vou
partilhar agora… mas se não foi é mais uma história: a minha mãe sempre teve a
mania de me pentear aquele cabelo maroto que se coloca na testa, cabelo esse
que evoca emoções tanto de sensualidade como de infantilidade, com saliva e à
frente dos meus colegas… da faculdade.
Repito: desconheço qual terá sido o
mal que terão feito tão vis seres.
Ahhh, esperem lá! Descobri. Se calhar
os meus pais transmitiram-me valores, educação e, talvez, me tenham ensinado a
usar o bom senso.
Bom senso, aquilo que todo o Homem
gosta muito de encher a boca ao afirmar que utiliza mas não faz a mínima ideia
do que é. Deve ser uma técnica somente usada para enganar os estrangeiros... ou
para ir à caça de gambuzinos.
Pais meus, que crimes contra a
humanidade realizastes vós? Devemos ter voltado à Idade Média para os
progenitores voltarem a protagonizar tão obsoleta tradição? Realizem-se já
marchas, protestos e abaixo-assinados contra quem ainda pratica tão desprezível
e desatualizada atitude!
Confesso a minha ignorância neste tema
mas questiono-me se é somente a descendência de infame progénie que consegue
pensar e racionalizar por si própria ou a malta cuja ascendência é mais moderna
e tapa os olhos e aperta o pescoço à educação também o faz? Permitam-me a dúvida que eu admito as
devidas exceções.
Tudo isto pode parecer uma breve,
superficial e, potencialmente, até, desnecessária reflexão sobre os problemas
da sociedade contemporânea mas com a progressão do texto revelada será a sua
necessidade.
Como seres pensantes e refletivos, somos
capazes de questionar e de duvidar do que nos dizem ou mostram. Ou pelo menos
devíamos. Como tal torna-se assombroso ver quantas pessoas são capazes de
seguir tendências tão, claramente, perigosas e prejudiciais tanto para elas
como para a comunidade.
Sendo assim, a moda deste verão é: tatuagens de sol.
O conceito é simples. Aplicam-se
desenhos sobre a pele e colocam-se as pessoas ao sol à espera que a pele fique
“tatuada”.
Tatuada é o termo que esses seres
geneticamente programados para possuir a admirável e impressionante quantia de
dois milhões de neurónios utilizam para se gabarem da proeza alcançada. Os restantes,
que, geneticamente, foram “injustiçados” com uns milhares de milhão extra de
células nervosas, costumam dizer que a pele fica queimada, agredida e até mal
tratada. Quiçá sejam só estes últimos os que têm consciência da inconsciência
que aquela atividade representa.
Uma questão insurge-se neste momento
de progressiva perda de esperança na humanidade: não é do senso comum, que a
radiação emitida pelo sol pode ser periclitante? Ou tamanho ensinamento só é
colocado à disposição nas faculdades de medicina, enfermagem e afins?
Não me interpretem mal. Esta nova moda
é tão perigosa como os velhinhos salões e máquinas de bronzeamento e de praia
sem o protetor adequado. Os seus defensores podem até argumentar que é menos
perigosa uma vez que só a área dita “tatuada” está exposta aos perigos da
radiação.
Cientistas passam anos a investigar,
estudar e interrelacionar a radiação ultravioleta, queimaduras e a génese de
cancro da pele e chegam à conclusão que pode tornar-se ameaçador à própria
biologia e fisiologia humanas. No entanto, umas poucas horas de investigação
pela internet revela o quão bonitos e bonitas estão os meninos e as meninas e
fazem logo pender a balança para a escabrosa tendência.
Atenção, o que estes senhores e
senhoras estão a fazer é de valor. Podemos estar a assistir a um valente e
histórico afrontamento às teorias de Darwin sobre a sobrevivência dos mais
adaptados. Deixemos que a batalha comece!
Podia ser spoiler e contar o último episódio, mas contenho-me. Digo apenas
que o seu criador, para ceifar personagens dos episódios, é pior que o George
R. R. Martin.
Este tipo de modas não se entendem. Na
verdade, poucas são as que chegam a roçar o córtex da minha compreensão. Talvez
seja eu um inadaptado tendo em conta as condições sociais que, em pleno 2015,
nos são apresentadas. Afinal, uma espécie como eu só pode ter surgido do
cruzamento de um óvulo de Berzebu e um espermatozoide da mítica criatura
finlandesa Peikko, numa experiência cuja metodologia e instruções de fabrico
vieram numa caixa de cereais proveniente dos grandes laboratórios subterrâneos
e clandestinos asiáticos.
Vivemos na era da tecnologia e a que
muitos especialistas chamam “Era da Informação”. No
entanto, todo o potencial que nos é proporcionado acaba por ser desaproveitado
por malta sem capacidade de filtro e que acredita em tudo o que está escrito na
primeira hiperligação do Google.
Saber que tendências devem ser
seguidas (para não falar de muitos outros assuntos mais importantes que este)
exige um exercício de reflexão que, infelizmente, a nossa sociedade não está
habituada a praticar. E quando o faz, acorda na manhã seguinte com dores de
cabeça, fruto da atrofia mental que tem vindo a sofrer. Desafortunadamente, as
nossas escolas e universidades já entraram numa espiral em que acreditam que decorar
é o caminho para o saber, pelo que o trabalho reflexivo, o uso da crítica e a
valorização da dúvida começam a estar, também, “fora de moda”. Estão-nos a condenar a passar uma vida
inteira amarrados a correntes e a olhar para uma parede onde só somos capazes
de ver a sombra do que se está passar.
Uma mera ilusão de realidade.
Sendo assim, optar por seguir a moda
das calças ao fundo do rabinho não é a melhor decisão. Mas sendo dada a escolha
entre esta e as tatuagens de sol, deixem lá a rapaziada andar a mostrar os
boxers. A ser possível que estejam lavadinhos e sem manchas.
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